Pensa no aniversário de dois anos. Doze embrulhos empilhados no chão da sala, a criança abre três e passa o resto da tarde brincando com a caixa de papelão do maior deles. Em janeiro, nem você nem ela lembram quem deu o quê.
Você já fez a sua parte nessas noites. Meia-noite, chave allen de dois milímetros na mão, folha de instrução com desenho e nenhuma palavra, montando um brinquedo que na manhã seguinte vai parecer que chegou pronto. Você montou, mas o brinquedo não é seu. Ele é idêntico ao de outras quatro mil crianças que ganharam o mesmo modelo naquele mês.
Agora pensa na sua própria infância. Você provavelmente não lembra de um único presente de loja dos seus quatro anos. Mas se alguém da sua família fez alguma coisa de madeira para você, um carrinho de rolimã, um balanço, uma casinha, você lembra da textura, do cheiro da tinta e de quem entregou. O que fica na memória é o que teve mão dentro.
A vontade de fazer não sumiu. O que sumiu foi o caminho até a madeira. A marcenaria da esquina virou loja de esquadria de alumínio, o depósito vende a chapa inteira e não corta peça avulsa, e quem tem máquina de corte atende pedido de fábrica, não um pai com um desenho na mão. Uma mãe escreveu isso para a gente:
“Passei a semana inteira tentando comprar a madeira para fazer em casa e procurando quem cortasse, sem sucesso.”
Ela tinha a vontade, tinha o fim de semana livre e tinha o dinheiro. O que faltou foi alguém que vendesse as peças cortadas nas medidas certas. Esse é o motivo real pelo qual quase ninguém faz o brinquedo do próprio filho, e ele não tem nada a ver com talento.
E existe um prazo correndo. A bicicleta de equilíbrio serve dos dois aos quatro anos e meio. Depois disso a criança vai para o pedal, e a primeira bicicleta dela já vai ter sido feita por alguém. A única questão em aberto é por quem.